PG 105- XIRÊ

 

                                                                       XIRÊ 

Lua, iumina o terreiro.

Apagou-se o candieiro

Na hora de sarandar.

A yabase na cozinha

Prepara a boa comida

Pra quando a festa acabar.

 

No chão de terra batida

Estão as folhas colhidas

Lá nas matas da Jurema.

Nas brancas roupas cheirosas

Das yaos caprichosas,

O aroma de alfazema.

 

Tem mariô desfiado,

Tem gente pra todo lado

Querendo se acomodar.

Os atabaques chamando,

Mais gente está chegando.

O xirê vai começar.

 

Ogum vem abrir caminho,

Oxum vem devagarinho

Sua beleza mostrar.

Yansã com sua espada,

Com Ogum vai pela estrada

Sem medo de demandar.

 

Um a um os Orixás:

Xangô, Oxossi, Yemajá,

No terreiro vão chegando.

Nanã, Ossãe,Oba,

Omolú com seu xaxará,

Suas danças vão dançando.

 

A banda cheirando a flores,

Os Santos com suas cores,

Tudo é mistério e magia.

Alua já se escondeu.

Só Vesper está no céu.

Vem raiando um novo dia.

 

E o Sol se espreguiçando,

A sua luz derramando.

Chega para anunciar:

Oxalá,senhor da paz,

Que tudo vê e tudo faz

Vem seus filhos abençoar!

 

O perdão e a bondade,

O amor e prosperidade,

Á todos vem ofertar.

Aos presentes e ausentes

Aos crentes e aos descrentes

Sem nenhum discrimimar.

 

É o ferro a fogo forjado,

É a mata verde,punjante,

É o rio e a correnteza,

É a terra, o raio, o trovão,

É o ar que respiramos

Orixas são natureza.

Melinda

 

 

NOÇÕES  BÁSICAS  SOBRE “XIRÊ”

 

XIRÊ

Xirê é uma estrutura sequencial de cantigas para todos os orixás cultuados na casa ou mesmo pela “nação”, começando por Exú e indo até Oxalá.

 

A PALAVRA XIRÊ

A palavra xirê significa brincar, dançar, e denota o tom alegre da festa de candomblé, aonde os próprios orixás vêm a terras para dançar e brincar com seus filhos.

Durante o xirê, um a um, todos os orixás são saudados e louvados com cantigas e coreografias próprias.

É nesses momentos, de grande efervescência ritual, que as divindades “baixam”.

 

OS ORIXÁS NO XIRÊ

*Na MAIORIA dos candomblés o xirê segue a seguinte ordem:

Primeiro toca-se para Exú, no padê

(porque ele é o intermediário entre os homens e os orixás, entre o mundo do além e o da terra);

 

Depois, para Ogum

 (porque é o dono dos caminhos e dos metais e sem ele e suas invenções da faca e da enxada o sacrifício aos orixás e o trabalho na terra estariam impedidos);

 

Oxossi

(porque é irmão de Ogum e porque também está ligado à sobrevivência através da caça e da pesca);

 

Obaluayê

 (porque é o orixá da cura das doenças, ou aquele que as traz);

 

Ossaim

 (dono das folhas que curam; daí sua ligação com Obaluayê e também porque nada se faz sem folhas no candomblé);

 

Oxumarê

(aquele que faz a ligação entre o céu (nuvens) e a terra);

 

Oxum

(esposa favorita de Xangô, senhora das águas doces, do amor e do ouro);

 

Logum-nedé (o filho de Oxum, com Oxossi);

 

Iansã

 (senhora dos ventos e tempestades que no mito criou Logum-Nedé, juntamente com Ogum, quando Oxum o abandonou);

 

Xango;

(orixá da justiça)

 

Obá

(em muitas casas como irmã de Iansã e a terceira mulher de Xangô);

 

Nanã

(a mais velha das yabás-orixá femininos);

 

Yemanjá

(senhora das águas do mar. Dona das cabeças e mulher de Oxalá);

 

Oxalá

(o senhor de toda a criação).

 

Algumas casas, entretanto, seguem outra ordem: Exú é louvado antes do começo da festa, geralmente às 6 horas da tarde, sendo “despachado”.

 

Quando começa a festa toca-se para Ogum, Oxosse, Ossaim (porque são irmãos); Obaluayê, Oxumarê, Ewá e Nanã (três irmãos e sua mãe respectivamente, tidos como uma “família” da nação Gegê); Oxum e Logum-Nedé (mãe e filho); Iansã e Obá (duas irmãs); Xangô, Yemanjá e por fim Oxalá (filhos e seus pais respectivamente).

 

ESSA SEQUÊNCIA:

Essa sequência parece privilegiar os vínculos de parentescos e de nação, enquanto que a primeira privilegia os acontecimentos míticos que colocam em relação os orixás.

 

Seja qual for sua sequência e sua concepção cosmológica, ela costuma ser fixa para cada casa.

É ela que, de alguma forma, norteia os acontecimentos da festa, fazendo, entre outras coisas, com que os filhos identifiquem, através das cantigas e ritmos, os momentos apropriados ao cumprimento da etiqueta religiosa, como, por exemplo, dançar de certa maneira ou pedir a benção à mãe-criadeira, quando se toca para o orixá.

Fonte: Folha de Camacari